Nova Frontier 2018

Quando o avião desceu às 17:00 em Petrolina, a temperatura era de 34 “graus do Celso”, como se diz na roça. Inevitavelmente a música de Luiz Gonzaga “Petrolina, Juazeiro” veio à mente. A música eu conhecia bem, a bela cidade no estado do Pernambuco, ainda não.

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Vista da Orla do rio São Francisco / Aeroporto Petrolina

De lá eu partiria para a Expedição Nissan, fazendo parte da organização deste evento muito bacana organizado pela montadora Nipônica. Após já ter passado por Minas Gerais, a expedição iria percorrer Pernambuco, Bahia e Piauí nesta etapa.

O produto em foco nesta ação promocional da Nissan é a Nova Frontier modelo 2018, lançada no segundo semestre de 2017. Totalmente reformulada, ela vem com motores, chassi, câmbio e equipamentos novos, chegando a um segmento muito competitivo e com competidores tradicionais, como Toyota Hilux, Chevrolet S-10, Ford Ranger, VW Amarok e Mitsubishi Triton.

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Eu curti bastante o novo visual, com os imponentes faróis em Full Led chamando a atenção na parte da frente, e o capô longo fazendo uma espécie de “flecha” com o para-choque. A lateral tem uma linha de cintura alta e contínua, acompanhando o desenho do capô e terminando com a caçamba seguindo o mesmo desenho, dando uma sensação de fluidez e esportividade, mas mantendo a imagem de robustez característica desse tipo de veículo. As rodas são “apenas” aro 16, mas elas não se parecem pequenas nas caixas de roda, e são calçadas com pneus Maxxis 750 Plus Bravo H/T 255/70. Estes pneus grandes e altos são essenciais para o conforto ao rodar do carro e do seu desempenho no off road, sem interferir ao dirigir no asfalto, como pude conferir. Parado ao lado de outras pick-ups no trânsito, percebi que a Frontier é um pouco mais alta que as outras caminhonetes, eu ficava a cerca de um palmo acima do colega do carro ao lado, que me olhava com cara de poucos amigos ao perceber que o amiguinho aqui era mais alto que ele.

Além do visual, um novo e eficiente motor 2.3 biturbo agora fornece a força para o conjunto, com um excelente e novo câmbio automático de 7 marchas. Este câmbio tem as primeiras marchas mais reduzidas, ideal para as situações de subidas ou caçamba cheia, além de arrancadas e retomadas. As duas últimas marchas funcionam como “Overdrive”, priorizando o consumo. O escalonamento ficou muito bom. Os turbos agem em sequência, com uma turbina menor entrando em ação nos giros baixos e outra maior nos giros mais altos. Ao se acelerar com tudo, as duas turbinas entram em ação, e nas velocidades de cruzeiro apenas a turbina de baixa fica acionada para priorizar o consumo. A potência e torque são iguais aos do antigo motor 2.5, com 190cv a 3.750 rpm e 45,9 kg de torque entre 1.500 e  2.500 rpm.

No primeiro contato com o carro, gostei muito do novo interior, desde bancos, volante e painel. Me senti confortável e ao longo dos dias fui percebendo que todos os comandos são fáceis e intuitivos. O painel possui um visor digital onde se visualiza várias informações sobre o carro, dados do computador de bordo, sensor de ré, etc. Em pouco tempo, eu já automaticamente acionava os botões e comandos sem ter que procurar com os olhos onde estavam. Os comandos básicos de ar-condicionado, multimídia, faróis e computador de bordo eu uso bastante quando dirijo e dou valor quando são fáceis de usar. Infelizmente os vidros elétricos só possuem função “one-touch” no lado do motorista para descer o vidro, mas enfim, carro japonês é assim mesmo, segue o baile. O ar condicionado era digital dual zone. Junto com o isolamento da cabine, mesmo no calor pesado do Piaui, ele deu conta do recado sem levar poeira pra dentro do carro. Louvável essa característica, já que pra quem vai efetivamente rodar na terra como eu fiz, faz toda diferença pro conforto e limpeza interna do carro.

No primeiro dia com a Frontier versão LE, a top de linha, tive que carregar a caçamba (de 805 litros de capacidade e medidas de 1,52m de comprimento, 1,56 de largura e 47,3cm de altura) com muitos produtos, a maioria bebidas. Ela possui ganchos ajustáveis em trilhos nas laterais, que facilitam demais a amarração do que for carregado ali. Ideal para o pessoal que faz trilhas de moto e afins.

Saindo de Petrolina, passamos por Juazeiro e fomos em direção à barragem de Sobradinho do Velho Chico. Você conhece este local pelos versos de Sá e Guarabira “O Sertão vai Virar Mar” da música “Sobradinho”, referente ao nome da cidade onde fica a barragem. Diz a lenda, que um antigo profeta local determinou o alagamento da região dizendo que “o sertão vai virar mar”. A “profecia” virou realidade com a barragem. E uma linda música também, conhecida em todo país. Mais uma vez eu tinha a oportunidade de conhecer um local que servia de inspiração artística musical.

PS: algumas fotos do mirante da Barragem de sobradinho, definitivamente um dos locais mais belos que já fui.

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Nessa primeira parte da viagem eu fiquei prá trás do comboio, mas precisava chegar junto a eles a apenas 120 km de onde eu estava, nas Dunas de Casa nova, local onde se formaram belas dunas também a beira do rio São Francisco. Pensei que deveria ter que “apertar muito o passo” para os alcançar mas a pick up rende muito bem em estrada. Mesmo com 26 libras nos pneus, senti total confiança de imprimir um ritmo mais forte, sem ter nem que usar toda força do motor, nem ter que exigir muito nas curvas. Simplesmente dá pra andar um pouco mais forte sem susto. Eu de costumo sempre uso a função sequencial dos câmbios AT, e na Frontier as trocas são bem rápidas para este tipo de motor e câmbio. Usei basicamente o câmbio nesta posição o tempo todo (trocas semi-automáticas). Apesar de comandar manualmente as trocas, a central do câmbio não aceita muito marchas que deixem o motor abaixo do pico de torque de 1.500 giros. Nas reduções ele até que não limita muito a entrada da marcha e permite reduções para giros altos, mas, isso não e lá muito necessário em carros com motor a diesel turbo alimentados.

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Chegando na estrada de terra que levava às dunas, fiquei surpreso: como ela se comporta bem neste tipo de situação no fora de estrada! A suspensão é do tipo Mcpherson na frente, mas atrás possui um belo sistema “Fivelink” com molas helicoidas. Aliado ao chassi de alta resistência, o comportamento do é carro excelente, superior ao de outras pick ups, com um comportamento dinâmico muito bom, com a traseira “saltando” menos e com menos saídas de traseira. O rodar em estrada de terra possui conforto, aliado ao isolamento acústico eficiente e boa altura dos pneus, e se você não prestar atenção vai dirigir em velocidades entre 80 e 100 km/h sem perceber. Ela absorve bem os buracos e aceita mudanças de trajetória fortes numa boa. Ponto positivo importante da nova pick up.

No fora de estrada, em estradas de terra, um “problema” que pode ocorrer é a atuação do controle de estabilidade. Explico: Como ele é feito para manter o carro na trajetória, no caso de um movimento mais brusco de mudança de direção onde naturalmente a traseira iria sair, ele tende a “corrigir” a situação e pode atrapalhar a trajetória que foi decidida pelo condutor, pois na terra a aderência é menor e naturalmente o carro desliza um pouco sobre a superfície.  Eu passei por essa situação exatamente num trecho onde tive que desviar minha atenção para outra coisa, e quando percebi a estrada fazia um “cutuvelo” (curva muito fechada) à frente. Eu estava a 100 km/h, pois como falei, ela ganha velocidade sem você perceber.

A única alternativa que tinha era fazer um “pêndulo”, movimento de rally onde se joga a traseira do carro para um lado e para o outro para poder entrar numa curva fechada soltando a traseira (para evitar que o carro saia reto de frente). Mas meu medo era do ESP “abortar” o movimento e fatalmente o carro tenderia a passar reto. Como previsto, o sistema entrou em ação mas no final da curva, travando a roda de dentro da frente. Impediu um pouco de terminar a manobra como eu queria mas não interferiu na trajetória. Lembrando que o ESP e controle de tração podem ser totalmente desligados.

Aqui a lenda do rally Collin Macrae nos ensinando como fazer este tipo de manobra:

Nas dunas, uma dos carros do comboio atolou feio numa subida forte. O carro era da produção também e estava bem pesado. Bom momento para testar as capacidades off road da pick up da Nissan. O motorista não havia tentado usar nenhum recurso de tração ainda. Eu entrei, coloquei o câmbio na caixa reduzida, liguei o bloqueio de diferencial e desliguei as babás eletrônicas, e tentei dar uma ré. Os pneus já estavam bem afundados na areia e ela nem se mexeu, mas fui fazendo movimentos leves na direção e rapidinho ela saiu da situação embaraçosa que se encontrava.

O computador de bordo marcava 10,5 km/l de média quando fomos em direção ao Piauí, e quando cheguei no Albergue na Serra da Capivara estava em 11,5 km/l, isso num trajeto total de mais de 800 km percorridos já, incluindo a parte da estrada de terra e dunas. Um consumo muito bom, méritos ao motor de litragem não muito grande, com duas turbinas que trabalham em conjunto e o câmbio de 7 marchas.

No dia seguinte percorremos a Trilha da Energia, na Chapada dos Viadeiros, no meio de uma interessante vegetação alta e densa mesmo na região extremamente seca, que conta com um visual incrível. O caminho possui alguns trechos bem íngremes que foram cimentados. Tira um pouco da graça do off road, mas garante que pessoas inexperientes possam percorrer o local, especialmente em dias de chuva

Eu estava com o carro carregado, e resolvi ligar a caixa reduzida para ver como ficaria o comportamento. Acionei a chave no painel, e percebi que a luzinha indicativa ficou piscando. Como não havia ligado o sistema antes, fiquei na dúvida se havia acionado ou não. Cheguei em algumas subidas bem fortes, e o carro subiu sem dificuldades, parecia que a reduzida estava engatada… mas eu estava na dúvida ainda. Então refiz o procedimento e agora sim, a luzinha parou de piscar. Na outra ocasião eu não havia esperado tempo suficiente com o carro parado para o sistema ficar ativo. Assim que eu arranquei o carro de novo, fiquei impressionado com tamanha força que a Frontier apresentou nessa situação. As marchas ficam bem reduzidas mesmo, parecido com um jipe. Relação de marcha curta e força não falta para encarar obstáculos fora de estrada na Frontier. Fiquei curioso de enfrentar maiores dificuldades com a pick up japonesa depois dessa leve trilha.

Infelizmente, a expedição estava chegando ao fim, e o trajeto dessa vez seria direto da Chapada até Petrolina. Eu novamente saí atrás do comboio mas deveria chegar ao hotel antes de todos. Calibrei os pneus para 37 e 35 libras, e tive que imprimir um ritmo um pouquinho mais puxado dessa vez. A estrada reta e com boa visibilidade dava a impressão de se poder trafegar em velocidades mais altas, mas a grande quantidade de animais à beira da estrada não permitia se fazer isso com segurança. As fortes marcas de pneus na estrada indicando freadas fortes em direção aos acostamentos  era um lembrete constante do perigo, para os mais observadores. Mas eu alcancei em alguns momentos velocidades mais altas, e digo que a Frontier tem fôlego para atingir e manter velocidades que surpreendem quem não espera muito desempenho de um carro desse porte. Mas, não recomendo isso a qualquer pessoa, que fique bem claro.

Antes desse trecho da viagem, minha média ainda era de 11,5 km/l, e quando cheguei a Petrolina ele indicava 10,5 km/l. Como todo carro, até uma certa velocidade o consumo se mantém numa média muito boa, mas ao subir um pouco mais a velocidade o consumo é bem maior. Normalmente acima da velocidade normal de cruzeiro de 110-120 km/h. Mesmo assim, ainda excelente consumo num trecho total percorrido de uns 3000 km, incluindo quase todo tipo de terreno e situação, como estrada de terra, dunas, trilhas, usando o 4 x4 e caixa reduzida, em maior parte do tempo com a caçamba carregada.

Descarreguei o resto das coisas da caçamba da Frontier, e digo que entreguei o carro com um sentimento de ligeiro apego. Ela me serviu muito bem em todas situações que precisei. Rodei vários km por dia sem sentir cansaço, e os bancos com a tecnologia “gravidade zero” cumprem o que prometem. Qualquer banco com pouco conforto e apoio me causa bastante dor nas costas, e não senti nada mesmo dirigindo por até 10 horas no mesmo dia. A visibilidade é boa, os faróis a noite iluminam bem demais e a faixa de Led é visível de longe. Comandos fáceis, suspensão bem calibrada, espaço interno ok, powertrain eficiente.

O único grande porém dela na minha opinião é o fato de contar apenas com 2 Air Bags Frontais e nenhum lateral ou de cortina. Ela merecia isso. No resto, ficou difícil achar coisas a criticar. Na minha opinião, a nova Frontier precisa ser opção a ser analisada por qualquer um que queira comprar uma Pick Up zero km hoje. As concorrentes possuem características diferentes em alguns itens de comparação, mas a Frontier atende bem na média dos quesitos que costumamos observar e tem boa relação custo x benefício. Belo projeto da Nissan para aumentar a competitividade do segmento no país.

Um salve especial para toda a equipe que participou deste evento, pessoal de altíssimo nível! Obrigado por tudo!

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Este mineiro que vos fala tentando se proteger do calor do Piauí – sem sucesso.

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Viagem ao passado pelas estradas do País – a realidade passada do nosso presente.

 

Alguns dias atrás tive uma missão dada, de ir ao estado do Holly Espirit, buscar certa gema de ovo alemã sobre rodas turbinada. Não lembro o dia ao certo, mas foi na fatídica semana do dia 20 e poucos de dezembro, semana do natal. Como não existiam voos disponíveis para meu destino, lá me vou pegar um ônibus de viagem. Meu Deus… Quanto tempo não andava num negócio desse! Imediatamente me veio à cabeça os ônibus “flecha” da viação Cometa, e os Gontijo antigos. Eu era bem novo, mas, já ficava encantado com aquelas coisas muito grandes que levavam gente sobre rodas. Terminal rodoviário lotado, cheio de belas moçoilas, mas infelizmente nenhuma entrou no meu bus. Tudo bem,  pelo menos não ia ter ninguém a me incomodar sentando do meu lado, pensei. “Vou aproveitar e descansar para a viagem de amanhã”. Só que não, como diria Murphy. Eis que no fechar das cortinas, ou portas, entra um sujeito, que pra resumir, falou toda a história da vida dele até o tataravô do seu pai, e depois entrou em coma, ficando igual um boneco de posto , dormindo no banco ao meu lado, balançando pra lá e pra cá. Antigamente, isso iria me incomodar, mas, abstraí. O sujeito desceu no meio do trajeto, e aí pude curtir mais a viagem.

Homens, fica a dica: se entrar num ônibus vazio, NÃO sente ao lado de um cara se existirem 298 poltronas vazias. Isso é tipo parar do lado do seu mictório no banheiro da balada quando só tem você no banheiro. Essa é uma lei do universo e deve ser respeitada.

A estrada me causa receio. Simplesmente uma das que mais mata no Brasil, quiçá no mundo, já que somos penta-deca-tri-tetra campeões de mortes no trânsito. Observando pela janela, pude ver dezenas de radares no meio da estrada a 60 km/h! Não acho que resolvam muita coisa, pois o perigo da estrada é a pista simples, e a quantidade de curvas em subidas e descidas fortes, onde carros conseguem andar a 120 km/h mas caminhões andam a 10 km/h, ou, as fortes descidas que constantemente ônibus e caminhões perdem o controle do freio. Pensei comigo, ficar esperto porque na volta, vindo a 120 km/h, fica até difícil frear se deparar com um desses radares de 60 km/h numa dessas curvas fechadas da BR 262, estrada que liga as Minas Gerais ao Espirito Santo. Esse tipo de estrada inverte a ordem natural dos veículos na viagem, que normalmente é: carros mais rápidos que todos, ônibus mais devagar que carros mas mais rápidos que caminhões, caminhões mais lentos que todos, quanto maior e mais pesado, mais pra trás.

Mas não: O ônibus passava carros na curva e na subida, caminhão passava o ônibus na descida, dando “VDO” no tacógrafo, motos passavam o ônibus pela direita… E assim seguia a suruba pseudo-organizada automotiva dos motoristas brasileiros e suas carroças, como já diria o Fernando. No percurso, a viagem toma uma rota por cidades do interior do estado capixaba, saindo da BR 262. Mesmo sem o camarada ao lado, tirar uma soneca ficou difícil: a quantidade de buracos e imperfeições na pista transforma a grande carroceria do coletivo num pula-pula sobre rodas. Quando eu conseguia achar uma posição pro meu corpinho de 1.86m repousar, vinha um solavanco e me despertava. Desisti de dormir, amanhã me viro no café e Red Bull, e tudo certo. A cada cidade que passávamos, uma pequena parte dos tripulantes descia do ônibus, bem no meio da madrugada, pois a viagem teve inicio às 22h00min. Reparei na família que estava a minha frente nos bancos, uma mãe, um garoto de uns oito anos e uma adolescente de uns 14. Na saída de BH, tivemos de parar o ônibus, pois um deles havia ficado pra trás. E pra minha surpresa… tinha sido a mãe! Foi engraçado ver os dois garotos falando “cadê a mamãe???”. Depois da terceira indagação, eu intervi e perguntei “a mãe de vocês está no banheiro? Porque se não estiver ela perdeu o embarque!” A cara de paisagem deles me fez gritar ao motorista pra parar na hora! Lá vem a mãe esbaforida correndo e entra… ufa, imagina estes dois viajando sozinhos… A garota me agradeceu, difícil ver adolescente educado hoje em dia, e nesse ponto a mãe atrasada tem seu mérito. Há uns 15 minutos antes de eles chegarem a cidade que iam descer, ligaram pro pai avisando que estavam chegando, para ele buscar. Era 3 da madrugada quando o ônibus estacionou na pequena rodoviária, e o pai não estava lá. Foram os três caminhando por uma rua escura carregando malas. “Estes meninos vão ter problemas na vida”, pensei comigo. A mãe fica pra trás no embarque do ônibus e o pai esquece de buscar eles na chegada na cidade as 3 da manhã! Orei pra Deus os guardar – Salmos 27:10 “Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me recolherá”.

Mais alguns viventes desceram no meio do nada, no meio da noite, no meio da escuridão, e eu observava pela janela, além das estrelas numa noite de céu limpo, pensando que cada um tem sua vida, sua luta, sua história, nessa viagem estranha chamada vida, nesse lugar esquisito chamado terra. Bônus por estar no Brasil. O país onde o poste é que mija no cachorro.

Já pela manhã, chego ao destino, absurdas 10 horas após a saída de Belo Horizonte, para percorrer apenas 510 quilômetros. Tudo devido à péssima situação das estradas, de pista simples, mal planejada, cheia de curvas, com poucos pontos para ultrapassar, e mal conservada. Um preço muito alto que pagamos nos impostos, combustíveis e passagens, para não ter o mínimo necessário para uma viagem mais segura e confortável.

Murphy dessa vez fez o inverso, e meu contato já me esperava na rodoviária da cidade. Ainda bem, pois eu estava cansado da madrugada que passei em claro. Após as devidas conversas e resoluções básicas legais, tomo o rumo de volta, já por volta de umas 11h00min da manhã. Havia caído uma barreira por causa das fortes chuvas, e não pude pegar a estrada principal desde o principio. O trajeto foi desviado para pequenas cidades em estradas secundárias, que até estavam bem conservadas, mas sofriam do mesmo mal: pista simples e pouco espaço para ultrapassagens. Eu havia decidido fazer a viagem de forma tranquila, e a potência do carro permitia fazer as ultrapassagens quando dava de forma rápida e segura. Detalhe para a parada do almoço na cidade de Venda Nova no estado do Espirito Santo, onde tem um restaurante que só usa produtos naturais e orgânicos excelente! Esqueci o nome, mas é algum trocadilho com um nome em inglês, a cidade é pequena, não deve ser difícil achar, se passar por lá, coma lá porque é muito bom e barato. Essa foto aqui é do local, muito bonito por sinal (Reparou no trator antigo ao fundo da foto? Dá até pra fazer foto de book de casamento ali).

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Finalmente chego a BR 262, estrada que leva direto pro meu destino. O volume de carros já era grande, e a tal da situação da pista simples, carros lentos e poucos pontos pra ultrapassar se repetia. O mais interessante é que, quando chegava a pontos com a terceira faixa, que serve para que o fluxo não trave naqueles caminhões lentos em subidas fortes, o seguinte acontecia: os caminhões a  15 km/h abriam pra passar os que estavam a 8,9 km/h. Aí ia aquela coisa lenta… devagar quase parando, e a fila de carro atrás, sem muito o que fazer. De repente acabava a faixa auxiliar, e ninguém passava ninguém. Quando não tinha caminhões, todos os carros iam pra faixa de ultrapassagem, para não deixar o carro de trás passar ele. Lá na frente algum feliz brasileiro no seu carro 1.0, com seis ocupantes mais o cachorro, cheio de malas, pneus que não são calibrados desde o carnaval de 2015, ia à frente, sem se dar o trabalho de reduzir marcha para pelo menos aproveitar o que o motorzinho pode oferecer. De novo, ninguém passava ninguém, acabava a faixa, e a mesma fila continuava. Brasileiro realmente prefere se dar mal junto, só para não ver o outro se dar melhor. Se os mais lentos dessem passagem aos carros mais potentes, a fila desfazia e a viagem ficava melhor pra todo mundo. Mas não… é proibido agir de forma sensata nesse país.

Eu estava tranquilo, pois sabia que não adiantava querer passar todo mundo ou correr muito, por causa dos radares e policiais da PRF brincando de pique-esconde, e o risco de ficar preso atrás de algum caminhão muito lento logo a frente. Mas uma coisa estava me incomodando: eu não consegui conectar o celular no som do carro, e fui obrigado a vir escutando rádio. Escutar rádio vindo do ES pra MG significa aprender uma coisa: só toca Sertanejo. Em TODAS as rádios. Eu basicamente vim escutando “Marília Mendonça”, “Maiara e Maraisa” e “Simone e Simaria” a viagem toda! No posto, quando o frentista veio perguntar se o pagamento era cartão ou crédito, eu por instinto falei “toma aqui uns cinquenta reais”…

A cara de desaprovação do honesto trabalhador me deixou sem graça. O que aconteceu com a música sertaneja que era tão boa pra viagem? Antigamente era o matuto falando das maravilhas do sertão, de quando ele viajou pra Aparecida do Taboado em Mato Grosso e ficou 60 dias apaixonado por uma morena, do fio de cabelo no paletó, de madrugada a passarada fazendo alvorada, vendo a chalana que de longe se vai, escutando o sabiá cantando no jequitibá, enquanto o menino da porteira pede pro seu moço tocar um berrante, que acorda, pega a viola e vai viajar? Me desculpem o saudosismo, mas, é que a viola fala alto no meu peito humano. Hoje em dia as músicas “sertanejas” é um tal de fulano querer mostrar pra ciclano que ele é melhor e que ele não liga pra nada se terminar e ele vai pra balada ostentar bebendo vodka com energético, ou qualquer coisa parecida. E esse tema nem pode ser considerado pioneiro ou inovador, afinal a maior música da nossa história já dizia: “E nessa loucura de dizer que não te quero”. E se resolvia tudo na boate azul com a flor da noite, curando um amor com outro amor. Aliás, pessoa não muito comum que sou, enquanto escrevo escuto Jonnhy Cash, The White Stripes, Pearl Jam e Sepultura. (Sim, eu escuto música enquanto escrevo, nem eu entendo como, mas funciona. E com fone de ouvido).

Mas eu fui curtindo a paisagem, a viagem, a vida, por que eu sempre olho tudo pelo lado positivo, e tento não reclamar. Existe sempre o lado bom. Observava as montanhas com a vegetação verdinha das ultimas chuvas, e lembrei-me das inúmeras viagens que fiz para as praias capixabas, com família e amigos, tempo bom que ficou pra trás na lembrança. Obrigado ao Espírito Santo por tudo que já fez ao povo mineiro, a gente não te esquece jamais.

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De qualquer jeito, a viagem me custou 7 horas e meia, no trajeto de 510 quilômetros. No meio do trajeto teve de tudo, por três vezes veículos da POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL fazendo ultrapassagem proibida em faixa continua me obrigaram a jogar o carro pro acostamento três vezes para não bater de frente com a viatura!!! Na divisa do ES pra MG, o asfalto mudou drasticamente de qualidade e ficou muito pior. O carro de rodas aro 17 e pneus de perfil baixo sentia os impactos, e eu nem ligava mais de ir tão devagar seguindo o fluxo. Eu tava no fluxo, só não avistei nenhuma novinha no grau. Ah é, esqueci, no rádio tocava funk também.

Para comparar, fiz uma viagem a São Paulo pela BR-381, toda duplicada. Em carro com bom motor seis em linha e ótima estabilidade, fui apenas mantendo uma boa velocidade, e fiz o trajeto de 600 quilômetros em 5 horas e 45 minutos, com consumo de 12,5 km/l, mesmo no 6 caneco tração traseira de 1.500kg. Nesta viagem aqui, por tanto andar devagar e ter de fazer diversas retomadas, sem falar dos sinais e quebra molas ao passar pelas cidades, o consumo foi de 9,5 km/l, num excelente 2.0 turbo quatro cilindros, muito eficiente e que poderia fazer fácil uns 13-14 km/l no ritmo que vim.

Um desperdício, e um retrocesso. A estrada, e o comportamento dos motoristas me transportou imediatamente para um tempo distante, onde parece que não existiam soluções melhores de infra estrutura, e que a educação e civilidade das pessoas não era um ponto a ser debatido por ninguém. A viagem foi nos dias de hoje, na última semana do ano de 2016 que com certeza marcou a vida de muita gente, mas ela acabou me mostrando a triste realidade do passado que vivemos no presente, e que nós não nos damos conta. Seguimos o fluxo, preocupados apenas com a nossa vida, nossas necessidades, sem pensar no outro, e como podemos melhorar como pessoas, cidadãos, e como nação. A melhor definição de sucesso é ter suas ações e atitudes no presente, não repetindo os erros do passado, e buscando sempre um futuro melhor. Que Deus abençoe o Brasil nessa longa caminhada.

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